WORKSHOP Internacional
Estudos funcionais recentes em matérias-primas alternativas ao silex: avanços metodológicos e inferencias arqueológicas
23-25 Maio 2008
Marina de Araújo Igreja
LAMPEA-UMR 6636 du CNRS (Aix-en-Provence)
UNIARQ-Faculdade de Letras
(Lisboa, Portugal)
dearaujo.igreja@mmsh.univ-aix.fr
São vários os métodos de registo e de análise do vestígio arqueológico desenvolvidos nos últimos 50 anos, os quais permitiram alargar o leque de inferências sobre as sociedades do passado, nomeadamente os estudos de tecnologia lítica e as análises sobre a função dos artefactos arqueológicos, em particular a dos artefactos de pedra lascada e polida. A Traceologia consiste em determinar a função dos utensílios através da análise dos estigmas de utilização impressos nas superfícies e nos bordos dos objectos. Esta análise, realizada através da microscopia, permite conhecer as opções técnicas desenvolvidas pelo Homem em termos de economia e gestão dos artefactos.
Em muitos contextos arqueológicos os artefactos líticos constituem a fonte de informação mais abundante sobre os sistemas técnicos, quando não a única, permitindo reconstituir uma parcela importante do comportamento das sociedades pré-históricas. Eles revelam uma multiplicidade de opções técnicas, desde a matéria-prima seleccionada às modalidades de exploração adoptadas.
Os utensílios em sílex foram desde sempre os objectos preferencialmente seleccionados para a realização deste tipo de estudos, concentrando o interesse das diferentes áreas disciplinares. Com efeito, outros tipos de matérias-primas como o quartzito, o quartzo, o quartzo hialino, o basalto, por exemplo, foram relegados para segundo plano e interpretadas muitas vezes como matérias-primas de substituição. A sua utilização foi frequentemente associada, por vezes única e exclusivamente, à penúria em matéria-prima de boa qualidade.
Por outro lado, as propriedades físicas inerentes a estas rochas dificultam o trabalho de leitura e de interpretação dos estigmas presentes nos objectos nelas fabricados, sendo por isso excluídos dos estudos tipológicos, tecnológicos e traceológicos, sendo dada particular atenção aos artefactos produzidos em sílex. Este facto explica a raridade de estudos sobre matérias-primas que não o sílex, tanto a nível metodológico, como em termos de inferências arqueológicas sobre os comportamentos técnicos e económicos das sociedades estudadas.
Nos últimos anos, contudo, assistiu-se a um interesse crescente por estas matérias-primas, multiplicando-se trabalhos de investigação que contemplam não só aspectos metodológicos, como o próprio estudo dos materiais líticos trabalhados pelo Homem.
Na área da Traceologia, em particular, assistiu-se ao desenvolvimento de técnicas de análise específicas para a observação destas rochas, recorrendo-se a equipamentos variados desde a microscopia tradicional a sofisticados sistemas ópticos (Microscópio Electrónico, etc.). Intensificaram-se também os estudos de carácter experimental. Neste último caso, foi possível demonstrar que o processo de formação e as características dos vestígios de uso resultantes do contacto com materiais trabalhados, como o osso, a pele, a madeira, etc., são distintos dos do sílex, devido às propriedades físicas destas rochas.
Em termos de inferências arqueológicas, trabalhos mais recentes realizados com o objectivo de compreender as razões que motivaram os grupos humanos a utilizar tais matérias primas – quando nas proximidades existem fontes de aprovisionamento siliciosas - mostraram que os artefactos fabricados a partir destas litologias testemunham esquemas operatórios originais e estratégias de gestão dos recursos minerais diferentes do que acontece para o sílex. Com efeito, a escolha e utilização destas matérias-primas na produção de equipamento técnico pode ser, em alguns casos, explicada por factores relacionados com uma maior acessibilidade a estes recursos, como pode exprimir, também, no caso de períodos mais recentes, necessidades funcionais e escolhas culturais. A utilização destes recursos poderá ser explicada pela necessidade em preencher soluções técnicas específicas: as propriedades físicas (dureza, capacidade de resistência ao choque, etc) e a estrutura destas rochas (morfologia, volume natural, etc.) são especialmente adaptadas para a realização de determinadas actividades como o esquartejamento de carcaças animais, por exemplo, encontrando-se documentados em contextos arqueológicos casos de complementaridade entre estas matérias-primas e o sílex.
A realização deste workshop é fundamentalmente motivada por duas ordens de razões:
- a multiplicação, nestes últimos anos, de estudos aplicados a estas matérias-primas, e a necessidade de confrontar ideias, resultados, métodos e técnicas de análise;
- a utilização destas matérias-primas nos contextos arqueológicos portugueses.
Trata-se da 1ª reunião sobre este tema realizada em Portugal, com especialistas convidados nas áreas da Tecnologia e da Traceologia, portugueses e estrangeiros. A reunião compreende duas vertentes:
- Metodológica: com a exposição e demonstração de novas técnicas de análise desenvolvidas nestes últimos anos;
- Arqueológica: com a apresentação dos resultados obtidos em diferentes contextos arqueológicos sobre o estatuto destas matérias-primas, em termos das respectivas estratégias de gestão e de exploração e da sua relação com os contextos paleoambientais envolventes.
A realização deste Workshop é fundamental para os projectos de investigação que se encontram em curso em Portugal. Por um lado, permitirá enriquecer uma área de estudo que se encontra ainda em fase de desenvolvimento no nosso País, a Traceologia, e, por outro, completar os quadros de interpretação do papel desempenhado por estas matérias-primas nos diferentes contextos arqueológicos portugueses. |
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